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A nova emancipação feminina

A nova emancipação feminina

Historigacamente, a pílula anticoncepcional abriu as portas para uma revolução sexual, que possibilitou, entre outras conquistas, o ingresso da mulher no mercado de trabalho. Evolutivamente, as conquistas de condições de igualdade, civil e jurídica, entre os sexos e a perda do medo da gravidez proporcionou mudanças importantes nas relações das mulheres, consigo mesmas e em relação ao mundo que as circunscreve.

Infelizmente, este avanço trouxe uma séria conseqüência: a luta contra o relógio biológico. Se já não existem mais limites sociais para que a mulher ocupe o seu espaço no ambiente de trabalho, o tempo permanece implacável para aquelas que buscam não só a realização profissional, mas também poder engravidar e constituir uma família. Sabe-se que o número de óvulos que a mulher apresenta no início da sua vida reprodutiva é finito e que o passar do tempo representa uma redução tanto da quantidade como da qualidade ovocitária.

A luta para deter este efeito do tempo sobre a reprodução feminina não é recente. Desde a década de 80, vários centros do mundo vêm tentando desenvolver uma técnica eficaz para congelar os óvulos não com o objetivo principal de parar o tempo para as milhares de mulheres que necessitam (ou desejam) adiar sua gravidez, mas para armazenar os óvulos produzidos em excesso durante um tratamento de Reprodução Assistida. Como sabemos, a primeira técnica desenvolvida não obteve bons resultados. O chamado protocolo lento de criopreservação de óvulos foi ineficaz neste propósito, uma vez que permitia a formação de cristais de gelo no interior dos óvulos, fato que provocava sérios danos à sua integridade. Ainda assim, centenas de bebês nasceram após aplicação desta técnica. Entretanto, o baixo aproveitamento dos óvulos descongelados inviabilizou sua execução. Com uma taxa de sobrevivência muito baixa, somente 60% permaneciam intactos. Além disto, a maioria dos óvulos dava origem a embriões de baixa qualidade, com poucas possibilidades de implantação e de originar uma gravidez. Esta foi a realidade durante os últimos 20 anos de Reprodução Assistida.

Dado a este fracasso, a mudança de estratégia tornou-se necessária. No início da última década, começaram a ser relatados os primeiros ensaios do que logo se tornou uma realidade: o desenvolvimento de uma técnica de criopreservação de óvulos segura e eficaz. Com o advento da vitrificação dos óvulos, procedimento em que eles são congelados de uma maneira ultra-rápida, observou-se a ausência de formação de cristais de gelo e, desta maneira, ausência de lesão da integridade dos mesmos. Ainda assim, a técnica vem sendo aperfeiçoada e, hoje em dia, é possível encontrar uma taxa de sobrevivência superior a 90%, após o processo de descongelamento, e taxas de gravidezes similares àquelas obtidas com óvulos frescos (não congelados) . Recentemente, pesquisadores relataram o nascimento de mais de 900 bebês provenientes de óvulos criopreservados, nos quais não foi evidenciado qualquer tipo de malformação ou problema congênito, que poderia ser atribuído ao emprego da técnica.

Assumindo este sucesso, os mais importantes Congressos de Medicina Reprodutiva vêm debatendo o valor da criopreservação de óvulos sem indicação médica (como por exemplo, pacientes que serão submetidas a tratamento de tumores malignos), isto se considerarmos que a falência ovariana provocada pela idade não constitui uma indicação médica. Deste modo, comissões de preservação da fertilidade foram criadas para avaliar seu real benefício. O resultado disto foi que a maioria dos pesquisadores nesta área diz que cabe ao especialista em Reprodução Assistida oferecer ou disponibilizar este procedimento às suas pacientes, cabendo a elas a decisão final.

Mais que uma estratégia para a preservação da fertilidade em mulheres portadoras de tumores malignos, os bons resultados apresentados recentemente sugerem que a criopreservação dos óvulos constitui a nova fase de emancipação feminina. Ela permitirá que as mulheres possam estar inseridas na sociedade moderna competitiva, buscando a sua afirmação e realização profissionais, sem, entretanto, comprometer seu futuro reprodutivo, detendo seu relógio biológico, ou quem sabe, apenas ajustando os ponteiros para uma hora que ela julgue ser mais apropriada para a gestação.

Escrito por Marco Melo