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Cigarro e fertilidade

Cigarro e fertilidade

Os efeitos negativos do cigarro para a saúde em geral são amplamente conhecidos. Mas o que não é muito discutido é que o hábito de fumar pode causar sérios efeitos também na fertilidade, tanto masculina quanto feminina. O objetivo deste artigo publicado na Revista Current Opinion in Obstetrics and Gynecology foi apresentar o que há de mais recente na literatura médica sobre a relação entre os fumantes e a função reprodutiva, incluindo informações sobre o impacto do cigarro em todos os órgãos diretamente envolvidos no processo da reprodução.

No cenário mundial, o uso do cigarro continua crescendo entre mulheres que estão na idade reprodutiva. Na Europa e nos Estados Unidos, aproximadamente um terço dessas mulheres são fumantes. As que são consideradas tabagistas pesadas (mais de 10 cigarros por dia) tiveram a concepção adiada e insuficiência ovariana prematura quando comparadas às não-fumantes. A maioria dos trabalhos publicados nesta área sugere que a função do sistema reprodutivo feminino pode ser comprometida pela exposição ao tabaco de várias maneiras. Além disso, taxas baixas de sucesso são conseguidas em tratamentos de reprodução assistida.

Entre todos os alvos do sistema reprodutivo, o tecido ovariano é de longe o mais estudado em relação às conseqüências da exposição aos componentes do tabaco. Os componentes químicos presentes no cigarro parecem acelerar o esgotamento folicular, comprometendo não só a qualidade dos óvulos, assim como a sua qualidade, acarretando um aumento da incidência de infertilidade entre as mulheres fumantes. Além disso, a menopausa ocorre de um a quatro anos mais cedo neste grupo de pacientes.

Não há dúvida também de que os componentes do tabaco causam efeitos danosos no processo de maturação do folículo ovariano. Esse efeito é visto na pior performance da fertilização in-vitro nas mulheres fumantes.

Outros estudos também já demonstraram que fumantes precisam aproximadamente de duas vezes mais tentativas para engravidar quando comparadas às não-fumantes. Há também observações de taxas menores de gravidez e implantação de embrião em fumantes. O cigarro interfere na freqüência dos batimentos ciliares do endotélio das trompas. Em conseqüência, o atraso do transporte do embrião pode diminuir a viabilidade de sobrevida do mesmo e/ou aumentar a freqüência de gravidez tubária. Por outro lado, a aceleração do transporte também pode acontecer e prejudicar a implantação do blastocisto (embrião), já que ele pode entrar muito cedo na cavidade uterina. Comparada a uma mulher que nunca fumou, a fumante de mais de 20 cigarros por dia tem quase quatro vezes mais risco de gravidez tubária, um risco similar ao observado nas pacientes com histórico de inflamação pélvica.

Nos homens que têm hábito de fumar os efeitos também merecem destaque: é percebida uma redução na produção de esperma e danos no DNA (carga genética). Os espermatozóides dos fumantes têm a sua capacidade de fertilização reduzida e o embrião produzido a partir desse espermatozóide tem taxa de implantação no útero também reduzida.

Apesar de em alguns casos a literatura médica não ser unânime nas conclusões, fato é que uma série de evidências indica que os efeitos do cigarro são extremamente negativos para todo o sistema envolvido no processo de reprodução. Diante de tudo isso é importante ficar claro tanto para os homens quanto para as mulheres que desejam ser pais que o hábito de fumar aumenta o risco de doenças genéticas nos descendentes. Casais em idade reprodutiva devem ser enfaticamente desencorajados a fumar.

Escrito por Marco Melo