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SOP: Muito mais que um problema ginecológico

SOP: Muito mais que um problema ginecológico

SOP: Muito mais que um problema ginecológico

A síndrome dos ovários policísticos tem alta incidência e afeta a saúde da mulher de uma forma geral

Dr. Marco Melo, diretor científico da Clínica Vilara (Centro de Medicina Reprodutiva do Hospital Vila da Serra)

Entre nós ginecologistas, dizemos que devemos ser médicos não apenas centrados no aparelho geniturinário feminino, mas profissionais especializados na saúde geral da mulher. Um exemplo clássico de que devemos estar prontos para agir como promotores de saúde, observando cada detalhe do organismo, é a abordagem do ginecologista diante de uma paciente portadora da síndrome dos ovários policísticos (SOP).

A SOP foi descrita pela primeira vez há mais de 70 anos e, desde então, desperta muito interesse de médicos e pesquisadores, principalmente pela sua alta incidência. Estima-se que cerca de 5% a 10% das mulheres em idade fértil de todo o mundo tenham essa enfermidade.

A causa exata da SOP ainda é desconhecida. Atualmente, acredita-se que ela seja causada por uma herança poligênica (tendência genética ligada a alterações de vários genes), cuja manifestação clínica depende da interação entre essa predisposição genética e fatores ambientais, como o sobrepeso e/ ou obesidade, por exemplo. Um dado interessante é que filhas ou irmãs de portadoras da SOP têm 50% mais chance de desenvolver o problema.

Como diagnosticar

O diagnóstico é feito pelas avaliações clínicas e físicas e através de exames complementares. O sintoma mais frequente é a alteração menstrual. Ciclos irregulares, esporádicos ou até mesmo ausentes estão presentes na grande maioria das pacientes.

A obesidade ou sobrepeso também podem acometer até 50% das portadoras da SOP. A distribuição da gordura chama a atenção. Ela é do tipo central, isto é, especialmente ao redor da cintura e do abdômen, aumentando a relação cintura/ quadril.

Já as alterações da pele que podem ser indicativas de SOP incluem o hirsutismo (presença de pelos em locais onde normalmente não deveriam existir na mulher, tais como rosto, tórax, glúteos, ao redor dos mamilos, região inferior do abdômen e parte superior do dorso), acne (a famosa espinha, presente em cerca de 30% das portadoras da síndrome), seborreia (oleosidade da pele e couro cabeludo) e acantose nigrans (aumento da pigmentação da pele. Manchas escuras em áreas de dobras, como pescoço, axilas e face interna das coxas).

A ultrassonografia é o exame mais solicitado para avaliar a presença da SOP. A presença de múltiplos pequenos cistos (microcistos) na periferia dos ovários constitui um critério de análise importante. Para diagnóstico, devem ser observados 12 ou mais microcistos em cada ovário, medindo entre 2 e 9 mm. Exames laboratoriais (dosagens hormonais, pesquisa de resistência à insulina e avaliação metabólica) frequentemente revelam alterações típicas da SOP, como o hiperandrogenismo (aumento dos níveis no sangue dos hormônios masculinos), a hiperinsulinemia (aumento dos níveis de insulina no sangue) e as alterações metabólicas diversas, como o aumento de colesterol e triglicérides.

Dessa forma, observa-se que a SOP não consiste em apenas um problema ginecológico, mas de saúde geral da mulher.

O que fazer?

É imprescindível que a mulher procure seu ginecologista para uma avaliação individual do caso. De modo geral as recomendações incluem:

1. Mudança dos hábitos de vida: atividade física e redução de peso

Uma vida sedentária, maus hábitos alimentares e tabagismo agravam todas as complicações associadas à SOP. Portanto, a mulher portadora da síndrome deve procurar realizar, com regularidade, atividade física com o objetivo de melhorar suas condições cardiovasculares e como método para reduzir o sobrepeso/obesidade. Sabe-se que a redução de 5% do peso corporal já é suficiente para restabelecer ciclos com ovulação, restituindo a fertilidade e a regularidade menstrual.

2. Uso de medicações para regularizar ciclo menstrual

A mulher deverá procurar seu ginecologista para orientações. Segundo o seu desejo, ele julgará a necessidade de entrar com medicações para o controle da SOP.

2.1 Irregularidade menstrual sem desejo de gravidez

As medicações podem variar desde progestágenos, como o acetato de medroxiprogesterona ou a didrogesterona, até mesmo os anticoncepcionais em todas as suas formas (oral, transdérmico, injetável ou vaginal).

2.2 Irregularidade menstrual com desejo de gravidez

Os indutores da ovulação deverão ser utilizados para esse intuito. Claro, com muito cuidado, uma vez que essas pacientes podem apresentar uma resposta excessiva à medicação, correndo o risco de uma hiperestimulação ovariana (alta resposta dos ovários à medicação com a formação de vários óvulos) e de uma gestação múltipla.

3. Alterações dermatológicas (hirsutismo, acne e seborréia)

Novamente, cabe ao ginecologista orientar o tratamento da paciente. Às vezes não é necessário o tratamento especializado com o dermatologista. O uso de anticoncepcionais contendo a ciproterona podem reduzir bastante esses problemas. Em casos mais intensos há a necessidade de tratamento dermatológico, como depilação a laser e outros.

Conheça as consequências ginecológicas e metabólicas mais comuns 

  • Puberdade precoce: principalmente nas meninas obesas.
  • Redução da fertilidade: decorrente da redução da frequência da ovulação, que traz também a irregularidade menstrual.
  • Abortamentos: As possíveis causas são os distúrbios endócrino-metabólicos e uma possível pior qualidade dos óvulos das mulheres com a síndrome.
  • Complicações obstétricas: sabe-se que as portadores de SOP apresentam maior incidência de diabetes gestacional e pré-eclâmpsia (aumento da pressão arterial durante a gestação), complicações associadas aos distúrbios endócrino-metabólicos da SOP.
  • Câncer endometrial: como as mulheres, às vezes, ficam meses sem menstruar, o endométrio pode sofrer estímulo estrogênico excessivo sem a contraposição da progesterona, aumentando o risco de surgimento do câncer endometrial.
  • Consquências Metabólicas
  •  Obesidade: até 60% a 70% das portadoras de SOP apresentam sobrepeso ou obesidade.
  • Diabetes: as pacientes portadoras da SOP apresentam maior chance de desenvolver o diabetes por um aumento da resistência periférica à insulina.
  • Distúrbios cardiovasculares: são decorrentes do conjunto de alterações endócrino-metabólicas presentes na SOP. A obesidade central e o aumento da resistência periférica à insulina predispõem ao surgimento da hipertensão arterial sistêmica (aumento da pressão).

Sugestões, dúvidas ou maior interesse por esse artigo? Entre em contato conosco através do e-mail: contato@clinicavilara.com.br.